As Irmas do Homerinho

Posted: October 23, 2010 in Uncategorized

Mesmo fazendo um esforco enorme eu nao consigo mais lembrar da primeira vez em que encontrei com o Homerinho. E possivel que tenha side em alguma festa no porao da casa de alguem que eu nao conhecia. No tempo em que eu ainda ia a festas com antecipacao de ver gente, falar com gente, com alguns cigarros sem filtro no bolso, um trocado para o bonde e nenhum desejo de encontrar nem meninos nem meninas, nem uisque, nem guarana. So mesmo aquela fome de discussao intelectual, de escutar um violao talvez mal tocado, de cantar alguns versos de musicas escritas muito antes de eu ter nascido. Era um tempo cheio de surpresas, as historias que de repente circulavam iam devagarinho roubando pedacos de minha inocencia eu ia ficando outra pessoa, bem em cima da miha pessoa. Imagino que o Homerinho deva ter aparecido em alguma dessas festas. Ele tocava violao, mas nao lembro que cantasse muito, ou, se o fazia, cantava mais em ingles o que eu julgava execravel, um assalto a minha cultura tao magnificamente tupiniquim. Como poderia alguem preferir cantar Nina Simone se Noel Rosa nao tinha ainda morrido nas nossas memorias jovens de entao?  Bem mais tarde, eu cheguei a me apaixonar profundamente pela voz, pelo reportorio de Nina SImone e chorei sua morte em Paris. Sem consolo, sem luar, sem violao. Mas era assim o Homerinho: fumando muito, como de resto quase todos nos, com uma barba espessa para esconder a mandibula com resquicios de deformidade causada por um acidente na infancia, ele falava e cantava, a voz passando entre o caos de seus dentes desornadamente empilhados. Pois assim foi, ou de repente ou devagar, Homerinho (acho que Homero Duarte Paim Filho) e eu nos tornamos inseparaveis.

Pois entao, na epoca a gente nem pensava na realidade chan que nos rodeava. Tranquilos ficavamos deitados na cama pequena olhando pro teto e falando das nossas fantasias, das frustracoes de adolescentes incompletos, dos desejos mal declarados de vir a ser.  Para terror do seu Homero, o pai, que pensava que cometiamos pecados mortais enquanto eles ouviam radio na sala em frente.  Para Homerinho ate que era bom, levava fama, ainda que passageira, de  garanhao que nao era nem queria ser – mas, na pior das hipoteses, os ataques se tornavam menos  brutais.

Homerinho falava com uma voz doce, nao feminina, nao masculina. Uma voz coma docura de uma crianca curiosa que nao se sabe observada e vai mexendo nas coisas em que nao deve.   Uma fala macia, o borburinho do seus desecontros e questoes rolando entre nossas cabecas lado a lado, no mesmo travesseiro, sem que jamais sequer pensassemos em olhar um pro outro.

Foi entao que eu soube pela primeira vez o que era sadismo. A Vera, irma mais velha de Homerinho, havia acoplado um pequeno gravador a um cabo bastante longo e de alguma forma simiesca ou milagrosa, alcou o cabo com o bandido gravador de forma que se postasse logo fora da janela dos vizinhos de apartamento de cima.  Ela assim o fez por que escutavam varios barulhos suspeitos e julgavam que alguem provavelmente estaria cometendo algum crime de violencia fisica contra outro.  Pois nao e que eu chego com Homerinho e estao Vera, Madalena, o menino, e seu Homero ao redor da mesa ouvindo com muita atencao uma gravacao muito cheia de ruidos alienigenos. Mas, e um enorme porem, sem duvida alguma um homem estava batendo numa mulher e a mulher estava gostando muito.  Nem Homerinho nem eu entendemos naturalmente porque a mulher estava tao feliz e foi preciso que Seu Homero nos chamasse de burros e explicasse que a mulher so gostava de foder se tomasse pau.

Ficamos chocados.  Nossas fantasias relacionais, sexuais, amorosas, sentimentais eram todas coloridas de ambientes vagamente enfumacados, com flores, gim fizz, cigarros, roupas caidas de vagar, viagens a parte alguma, e quase sempre teminavam no que bom se um dia, sem chegarmos a uma conclusao real do que fariamos ou o que deixariamos de fazer.

Assim, de passo a passo, fomos, Homerinho e eu nos despojando de nossas virgindades. Tanto Vera como Madalena eram de certa forma pessoas amargas. Elas trabalhavam duro, apesar de que eu nunca soube fazendo o que, chegavam tarde em casa, cuidavam do seu Homero, de suas roupas e refeicoes, dos seus silencios casmurros, jornais, chimarrao e cafezinhos e cuidavam com muito carinho do menino.  O menino, diziam todos era filho temporao do seu Homero. A mulher dele nao vinha a cidade. Ela morava na fazenda e seu Homero voltava a cada duas ou tres semanas.  O menino era quieto, bem comportado e so falava quando alguem falava com ele.   Nao era particularmente apegado a ninguem na casa, e eu nao me preocupava muito com ele pois na epoca julgava que criancas fossem objetos completamente desprovidos de interesse.

Madalena usava chinelos em casa. Sacudia o pe sem parar, com a perna cruzada sobre a outra, era facil ve-la de olho no menino. Mas tambem nao falava muito. Acho que tinha esperancas de que Homerinho resolvesse virar “homem” pois andava comigo.

Homerinho me contou que o menino era mesmo filho dela.

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